Perda de mãe e filha, morador que soube da tragédia por foto e soterrada por 15 horas: veja os relatos dos sobreviventes da tragédia em MG
Moradora do Parque Burnier perde mãe e filha em desabamento de casas em Juiz de Fora Desde a noite de 23 de fevereiro, o temporal que atingiu a Zona da Mata mi...
Moradora do Parque Burnier perde mãe e filha em desabamento de casas em Juiz de Fora Desde a noite de 23 de fevereiro, o temporal que atingiu a Zona da Mata mineira deixou um rastro de destruição, com dezenas de mortos, desaparecidos e milhares de desabrigados. As cheias arrastaram casas e inundaram ruas em Juiz de Fora e Ubá, expondo histórias de perdas, sobrevivência e solidariedade. Para além dos dados oficiais, dos decretos e das explicações técnicas, a tragédia é vivida por moradores que estiveram soterrados, que lamentam ter perdido tudo o que construíram ao longo da vida, que se despediram de familiares ou enfrentam a angústia da busca por quem ainda não foi encontrado. O g1 reuniu algumas dessas histórias. Leia abaixo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsAapp Conheça as histórias de pessoas que vivem a tragédia na Zona da Mata mineira Redes sociais/reprodução Mãe morre ao proteger filho de 6 anos durante soterramento No bairro Parque Burnier, o mais afetado pelo temporal em Juiz de Fora, uma mãe protegeu seu filho, de seis anos, até o último segundo de vida. Antony sobreviveu a um soterramento na noite de segunda-feira (23). “Na hora do desabamento ela estava em casa e se jogou em cima do Antony. Ela ficou em cima dele e salvou a vida do filho”, relatou Sandra Rosa, mãe da vítima. Em entrevista à TV Integração, o menino contou como foi retirado dos escombros: “Fiquei todo enterrado com terra. Quem me ajudou foi um moço. Um tio me ajudou e me levou para o hospital”. O corpo da mãe foi sepultado no Cemitério Municipal de Juiz de Fora na quarta-feira (25), em um dia marcado por diversas liberações de corpos pelo Instituto Médico Legal e enterros na cidade. Antony Rosa, de 6 anos, foi salvo pela mãe durante o soterramento em Juiz de Fora TV Integração 'Tudo o que eu tinha nessa vida': mãe perde filha de 2 anos e a própria mãe Vitória Gomes perdeu a mãe e a filha, Mellissa Emanuelly, de 2 anos, durante o deslizamento no Parque Burnier. “Foi tudo muito rápido. Perdi a minha mãe e a minha filha de uma vez só, tudo o que eu tinha nessa vida", relatou, emocionada, à TV Integração. (Assista abaixo) Ela assistia à televisão enquanto a filha dormia quando o imóvel onde morava foi parcialmente atingido. Já a casa da mãe desabou completamente. “Minha filha ia fazer 3 anos em outubro. Muito pequenininha, começando a vida agora. Muito triste”. O velório de Mellissa ocorreu na quarta-feira (25), no Cemitério Municipal. Resgatada após 15 horas soterrada, técnica de enfermagem morre no hospital Jaqueline Teodoro de Fátima Vicente, de 32 anos, passou mais de 15 horas soterrada após um deslizamento na Rua do Carmelo, no bairro Paineiras. Ela foi resgatada na terça-feira (24), com fratura no fêmur e diversos ferimentos, mas morreu na madrugada de quarta-feira (25), no Hospital de Pronto Socorro. No momento do deslizamento, estava com os dois filhos e o companheiro, que ainda não foram encontrados. A mãe dela também morreu na tragédia. Segundo o Corpo de Bombeiros, a queda de um barranco atingiu o primeiro pavimento de um prédio e duas casas. No velório, a amiga de infância Gabriele Clemente lembrou: “Éramos amigas há cerca de 16 anos. Crescemos juntas no mesmo bairro, trabalhamos juntas e convivíamos todos os dias. Definir a Jaqueline em uma palavra é: alegria. Mesmo quando não estava bem, ela fazia de tudo para ajudar quem amava. Tinha um astral muito alto, sempre disposta e sempre sorrindo”. “É um momento dilacerante. Perder uma amiga assim, tão jovem e tão cheia de vida, é uma dor imensa”, completou. Jaqueline Teodoro de Fátima Vicente - Morre mulher resgatada após passar mais de 15 horas soterrada em deslizamento em Juiz de Fora Reprodução 'Vou morrer': sobrevivente relata agonia sob a lama No bairro Linhares, Tarcílio ficou preso pela lama e por entulhos por cerca de uma hora durante o temporal. Ele conseguiu se libertar sozinho. “A minha preocupação era só de descer o resto de terra e acabar de me soterrar.” Ele contou que ficou com a perna e a lateral do corpo presas até sair e ser resgatado por vizinhos. A noite seguinte foi difícil. “Tomei até um banho gelado porque estava com muito barro e deitei chorando de dor a noite inteira até amanhecer o dia”, relatou. Após o resgate, foi encaminhado à UPA Norte devido a um corte profundo na panturrilha e outros ferimentos. Recebeu atendimento e foi liberado. “Perdi tudo. Morava só eu e minha mãe na casa. Ela não tinha saído da rua ainda e não se feriu. Agora é correr atrás, buscar uma casinha melhorzinha para minha mãe, que tá na casa de parentes. Meu emprego também foi perdido, pois eu não tenho carteira assinada”, lamentou. Homem acha corpos do filho, do neto e da nora após descobrir desabamento de casa por foto O profissional da saúde Flávio Santos estava em Belo Horizonte quando o temporal devastou Juiz de Fora. Ele soube do desabamento da casa da família, na rua Nicolau Capelli, no bairro Cerâmica, após receber uma foto no celular. “Me ligaram para perguntar se estava tudo bem. Mas eu estava em BH. Falei que estava tudo bem. E falaram: ‘mas e o restante do pessoal?’. E eu falei: ‘não sei’. Me mandaram a foto e eu falei: ‘é minha casa’. Daí eu comecei tentar contato”. Na quarta-feira (25), foram localizados os corpos do filho, do neto de 3 anos e da nora. A esposa de Flávio e o outro filho do casal seguem desaparecidos. “Na verdade, enquanto não acabarem as buscas, eu tô aqui. Nessa hora não tem muita coisa, é só rezar para que eles não tenham sofrido. Que papai do céu receba eles de braços abertos”, disse, emocionado. Luto coletivo: despedidas marcam o Cemitério Municipal Ao longo da quarta-feira (25), cerca de 11 sepultamentos ocorreram no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, reunindo dezenas de familiares e amigos. Entre as vítimas também estava Deogracia Aurélia Fernandes, funcionária do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb). “Além de colega, ela era uma grande amiga. Sempre muito alegre, disposta e participativa. Amava festas e gostava de estar na rua, nos blocos. Foi uma das idealizadoras do Bloco da Garizada, que fez grande sucesso. É uma perda imensa. O setor inteiro está de luto. Não haverá mais aquela alegria contagiante dela”, disse a auxiliar de serviços Débora Bridges Ferreira dos Santos. Equipe do Demlurb se reunir para se despedir da colega de trabalho à Deogracia Aurélia Fernandes Luiza Sudré/g1 Em Ubá, cadela paraplégica é resgatada e ganha novo lar Em Ubá, no bairro Industrial, a Polícia Civil resgatou, na quarta-feira (25), uma cadela paraplégica que estava debaixo de um veículo, coberta de lama e sem conseguir se locomover. Batizada de 'Valente', o animal foi encaminhado para uma clínica veterinária para avaliação e higienização. “Nosso trabalho vai além da investigação criminal. Em situações como essa, a atuação solidária se torna essencial, principalmente para proteger vidas em condições ainda mais vulneráveis", afirmou a escrivã Marcela Marinho. Cadela paraplégica é resgatada após enchentes em Ubá Polícia Civil/Divulgação LEIA TAMBÉM: VÍDEO: homem tenta furtar caixa de som de comerciante atingido por enchente em MG e é impedido pela PM VÍDEO: Caixões de funerária são arrastados por enxurrada em Ubá VÍDEO mostra carros arrastados em correnteza durante enxurrada em Ubá, MG INFÓGRAFICO: Cidades afetadas em MG g1/Arte VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes